Existe um tipo específico de personagem que toda série de conspiração precisa e raramente sabe aproveitar: aquele que estava certo desde o início. Murray Bauman é esse personagem em Stranger Things — o homem que viveu em um bunker com fotos de arame e teorias na parede, foi ridicularizado por todos e, temporada após temporada, se provou absolutamente correto em cada uma delas.
Interpretado por Brett Gelman com uma mistura irresistível de cinismo, humor ácido e lealdade surpreendente, Murray chegou na segunda temporada como coadjuvante excêntrico e foi promovido ao elenco principal na quarta. O caminho entre esses dois pontos é um dos arcos mais satisfatórios da série.
Quem é Murray Bauman em Stranger Things
Murray trabalhou como jornalista investigativo no Chicago Sun-Times antes de abandonar a imprensa convencional. Os bastidores da série revelam que a saída não foi voluntária no sentido mais simples — ele seguiu uma pauta que destruiu seu casamento e sua relação com a filha, pagando o preço que jornalistas de investigação frequentemente pagam quando o trabalho consome tudo ao redor.
Depois disso, tornou-se investigador particular e instrutor de caratê, instalou-se em uma casa-bunker em Sesser, Illinois, e pintou “Keep Out” na porta da frente. Passou a consumir vodca com a mesma regularidade que outros tomam café. E continuou investigando porque era a única coisa que sabia fazer bem.
Quando a família Holland o contratou para descobrir o que havia acontecido com Barbara, Murray chegou a Hawkins carregando meses de pesquisa, um mapa coberto de conexões e uma teoria sobre invasão russa que todos, sem exceção, consideraram delirante. Hopper o dispensou em menos de dez minutos. A imprensa mainstream não quis saber. A cidade inteira o tratou como o louco do interior.
Murray Bauman estava certo.
O catalisador que ninguém reconheceu
Há uma contribuição de Murray que a série raramente celebra com o destaque que merece: foi ele quem colocou em movimento a cadeia de eventos que levou Hopper a encontrar Eleven.
Antes de qualquer confronto com o laboratório, antes do resgate de Will, antes de qualquer batalha, Murray foi até a delegacia com suas teorias sobre uma garota russa com habilidades psíquicas. Hopper o ignorou — mas a semente ficou. Quando outros indícios começaram a convergir, foi a conversa com Murray que ajudou Hopper a conectar os pontos e rastrear Eleven no bosque.
Sem Murray, Hopper talvez não encontrasse Eleven. Sem Eleven, Will não seria salvo. Sem Murray, o Hawkins Lab talvez nunca fosse exposto. A cadeia de consequências que parte desse investigador mal-humorado e subestimado é mais longa do que a série jamais parou para calcular em voz alta.
A segunda temporada: de teórico a arquiteto da virada
Na segunda temporada, Nancy Wheeler e Jonathan Byers chegaram à casa de Murray com uma gravação comprometedora de um cientista do laboratório admitindo envolvimento na morte de Barb. Tinham o material. Não tinham ideia do que fazer com ele.
Murray tinha. Em uma noite, ele analisou a gravação, identificou o que precisava ser editado para ser palatável à imprensa mainstream e orientou os dois sobre como tornar a história publicável sem soar como teoria da conspiração. Décadas de jornalismo investigativo condensadas em uma conversa de jantar — com vodca, é claro.
Nessa mesma noite, Murray também observou a tensão entre Nancy e Jonathan com a precisão de um psicólogo e a delicadeza de nenhum. Os dois estavam claramente apaixonados e fingindo que não. Murray disse exatamente isso, com todas as letras, sem cerimônia. E os colocou em quartos separados com a subtileza de uma marreta.
Sua percepção sobre relacionamentos — sempre correta, sempre dita na hora errada — se tornaria uma das marcas mais divertidas e precisas do personagem ao longo de toda a série.
A terceira temporada: Alexei e o momento mais inesperado
Quando Hopper e Joyce chegaram à sua porta com um cientista russo sequestrado que não falava inglês, Murray poderia ter recusado. Tinha todas as razões para isso. Em vez disso, abriu a porta, abriu uma garrafa de vodca e começou a traduzir.
O que surgiu entre Murray Bauman e Alexei foi uma das relações mais improváveis e deliciosas de toda Stranger Things. Os dois passaram dias confinados debatendo capitalismo, trocando julgamentos sobre os hábitos alimentares um do outro e, gradualmente, desenvolvendo algo que só pode ser descrito como amizade genuína.
Alexei era um homem simples que queria Woody Woodpecker, algodão-doce e liberdade. Murray era um cínico que havia perdido a fé na maioria das pessoas. O encontro dos dois funcionou porque Murray, debaixo de toda a armadura de desconfiança, era capaz de reconhecer integridade quando a via.
Quando Alexei foi assassinado na feira, a perda pesou sobre Murray de uma forma que a série deixou implícita mas nunca sentimentalizou. Ele não derramou lágrimas em cena. Mas quando precisou enfrentar os agentes soviéticos responsáveis pela morte do amigo, não havia ambiguidade sobre o que estava motivando cada golpe.
A quarta temporada: de Hawkins ao Gulag soviético
A quarta temporada levou Murray Bauman mais longe do que qualquer coisa que havia feito antes — literalmente. Ele e Joyce viajaram até Kamchatka, na Rússia, para resgatar Hopper de um campo de trabalho forçado soviético.
A missão exigiu que Murray se disfarçasse de Yuri Ismaylov, um contrabandista russo que conhecia o caminho até a prisão. O disfarce foi construído com a mesma combinação de competência absurda e humor involuntário que definia tudo que Murray fazia. Ele falou russo fluente, navegou burocracias soviéticas e enfrentou Demodogorgons com um lança-chamas com uma calma que sugeria ou total coragem ou completa dissociação da realidade.
Provavelmente os dois.
Nessa temporada, a parceria com Joyce ganhou uma dimensão emocional nova. Os dois passaram semanas confinados em situações de risco extremo, e o que emergiu foi uma amizade construída sobre honestidade mútua. Murray não filtrava o que pensava. Joyce não precisava fingir que estava bem. Era o tipo de relação que só sobrevive quando as duas pessoas já viram o suficiente para parar de performar.
Brett Gelman e o personagem que redefiniu sua carreira
Brett Gelman é americano, natural de Chicago, e construiu sua carreira ao longo de décadas em produções de comédia e drama independente. Era conhecido em círculos especializados por trabalhos como Fleabag e Eagleheart, mas Stranger Things o colocou em uma escala completamente diferente.
Gelman foi promovido ao elenco principal na quarta temporada após a resposta do público ter deixado clara que Murray era muito mais do que um personagem de suporte. O ator contribuiu ativamente para o desenvolvimento do personagem, sugerindo nuances que os roteiristas incorporaram ao longo das temporadas.
Fora de Stranger Things, ele acumulou créditos em Lady in the Lake e continuou sendo uma das presenças mais versáteis da televisão americana. Mas foi Murray Bauman que o definiu para o público mais amplo — e provavelmente continuará sendo sua obra mais reconhecida.

O legado de quem sempre esteve certo
O legado de Murray Bauman está em uma ironia que a série nunca resolve completamente: o personagem mais constantemente correto de Hawkins é também o menos levado a sério. Ele identificou a presença soviética antes de qualquer outro. Expôs o laboratório antes que alguém tivesse coragem. Percebeu os sentimentos de Nancy e Jonathan antes deles mesmos. Chegou à Rússia quando todos os outros haviam desistido.
Em um universo onde o conhecimento certo na hora certa faz a diferença entre a vida e a morte, Murray Bauman foi, repetidamente, a pessoa mais bem-informada da sala. E passou toda a série sendo o último a receber crédito por isso.
Havia justiça poética nisso. Um jornalista que perdeu a carreira convencional por buscar a verdade passou a vida inteira sendo ignorado por dizê-la em voz alta — até que a realidade finalmente alcançou todo mundo e tornou impossível continuar fingindo que ele estava errado.
Murray Bauman não precisava que Hawkins acreditasse nele. Precisava apenas que sobrevivessem o suficiente para ver que ele tinha razão.
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