Há personagens que existem para iluminar a trama. E há aqueles que existem para ser consumidos por ela. Megumi Fushiguro pertence à segunda categoria — e isso, de forma surpreendente, é exatamente o que o torna tão fascinante dentro do universo de Jujutsu Kaisen.
Desde os primeiros capítulos, ele foi descrito por Satoru Gojo como alguém com potencial para se tornar o feiticeiro mais forte da geração. Porém, diferente de Yuji Itadori, que abraça a luta com o coração, Megumi a enfrenta com lógica fria, consciência do risco e uma filosofia moral que o coloca frequentemente em conflito com as próprias regras da sociedade jujutsu.
A origem do Clã Zenin e a herança rejeitada
Megumi Fushiguro nasceu filho de Toji Fushiguro, um homem que abandonou o sobrenome do Clã Zenin por rejeitar a cultura que ele representava. Toji não tinha energia amaldiçoada — uma anomalia para alguém de linhagem tão poderosa — mas compensava com habilidades físicas sobre-humanas e um domínio de combate corpo a corpo sem paralelo.
Ao vender Megumi para o Clã Zenin antes de desaparecer, Toji garantiu que o filho crescesse sob tutela financeira do clã, mas não sob seu teto. Gojo interviu antes que isso acontecesse e assumiu a responsabilidade pelo treinamento de Megumi, reconhecendo nele uma técnica herdada de valor incalculável.
Essa técnica era a Técnica das Dez Sombras, propriedade tradicional do Clã Zenin. Tão poderosa que o próprio clã estava disposto a pagar uma fortuna para reintroduzir a habilidade em seu núcleo familiar. O paradoxo é evidente: Megumi herdou o maior tesouro do clã que seu pai desprezava, sem nunca ter pertencido de fato a ele.
O que é a Técnica das Dez Sombras
A Técnica das Dez Sombras permite que o usuário crie e invoque shikigamis — espíritos animalescos formados a partir de sombras — usando suas próprias mãos como fonte de luz. Cada shikigami possui habilidades distintas e precisa ser subjugado em um ritual de exorcismo antes de poder ser controlado.
No arsenal de Megumi, os Cães Divinos funcionam como rastreadores e combatentes de alta velocidade. O Nue é um pássaro com asas eletrificadas, capaz de transportar aliados e desferir ataques à distância. O Elefante Máximo dispara jatos d’água de alta pressão. Os Sapos funcionam como armadilhas e auxílio de mobilidade. A Grande Serpente Orochi ataca pelo subsolo com movimentos imprevisíveis.
Além das criaturas, a técnica permite armazenar armas e ferramentas amaldiçoadas nas próprias sombras — um detalhe que amplia significativamente as opções táticas de Megumi em combate. Ele raramente luta apenas com força física. Cada batalha funciona como um problema a ser resolvido, com as sombras servindo de peças num tabuleiro que só ele enxerga completamente.
Mahoraga: o shikigami que não pode ser controlado
O ponto mais extremo da Técnica das Dez Sombras é Mahoraga — O General Divino da Espada de Oito Alças. Nenhum usuário da técnica ao longo de toda a história do jujutsu conseguiu subjugá-lo. Isso significa que Megumi pode invocá-lo, mas não pode controlá-lo.
Convocar Mahoraga é, na prática, uma aposta suicida. O shikigami ataca qualquer coisa em seu campo de visão, incluindo o próprio invocador. A única razão para usá-lo é transformar o combate em caos absoluto — uma situação desesperada onde a destruição mútua é preferível à derrota certa.
Megumi chegou perto de invocar Mahoraga em dois momentos distintos antes do arco de Shibuya, sempre como último recurso. Esse padrão diz muito sobre sua psicologia: ele é um personagem que carrega consigo a disposição de se sacrificar quando não vê outra saída, o que ao mesmo tempo o torna corajoso e profundamente vulnerável.
Foi exatamente essa vulnerabilidade que Sukuna explorou. Ao perceber o potencial da Técnica das Dez Sombras durante seu primeiro confronto com Megumi, o Rei das Maldições tomou a decisão de preservá-lo — não por compaixão, mas por estratégia.
A queda e o domínio de Sukuna
O arco do Jogo do Abate redefiniu Megumi Fushiguro de forma brutal. Após a irmã Tsumiki ser forçada a participar do jogo e acabar sofrendo consequências devastadoras, Megumi foi levado ao limite emocional. Sukuna aproveitou o momento de colapso para assumir o controle total do corpo do jovem feiticeiro.
Diferente do que acontecia com Yuji, Megumi não resistiu. Sua consciência foi suprimida enquanto Sukuna utilizava o corpo e a técnica dele para eliminar aliados, destruir adversários e eventualmente confrontar e matar Satoru Gojo. Tudo isso com Megumi preso dentro de si mesmo, sem capacidade de agir.
Esse período representa um dos arcos mais sombrios da série. O personagem que havia sido construído como um pilar moral da trama foi transformado em instrumento de destruição pela entidade que mais temia. Sua recuperação só foi possível graças à intervenção de Yuji, que — após a derrota de Sukuna — foi capaz de alcançar a alma de Megumi e trazê-lo de volta.
O protagonista que quase foi o protagonista
Um detalhe revelado pelo autor Gege Akutami acrescenta uma camada extra à leitura de Megumi Fushiguro. Nos esboços originais de Jujutsu Kaisen, era Megumi quem ocuparia o papel de protagonista. A série se chamaria Jujutsu Sousen e teria um tom muito mais sombrio e cínico.
Porém, após a avaliação dos editores, a conclusão foi que Megumi era melancólico demais para sustentar sozinho uma narrativa de longo fôlego. Yuji foi criado como contraponto — mais caloroso, mais impulsivo, mais fácil de amar imediatamente. Megumi foi reposicionado como deuteragonista e foil do protagonista.
Esse contexto de criação explica muito sobre a função narrativa do personagem. Megumi representa o lado pessimista da história: o feiticeiro que enxerga o mundo como um sistema quebrado, que desconfia de estranhos, que calcula antes de sentir. Ao lado de Yuji, esse contraste cria uma dinâmica que torna ambos mais completos.

O que resta de Megumi após tudo
No desfecho de Jujutsu Kaisen, Megumi Fushiguro foi recuperado por Yuji, mas o estado em que saiu da experiência não é de triunfo. Seu corpo foi usado como arma contra pessoas que ele protegia. Sua técnica foi instrumento de destruição em mãos que não eram as suas.
A série não oferece a Megumi uma redenção limpa ou uma vitória clara. O que ele ganha, ao final, é simplesmente a chance de continuar existindo — o que, dado tudo que aconteceu, já é considerável.
Ainda assim, Megumi Fushiguro permanece como um dos personagens mais complexos de Jujutsu Kaisen. Não pelo poder, não pela técnica, mas pela consistência de uma tragédia construída pacientemente desde o primeiro capítulo até o último. E isso é algo que poucos personagens de qualquer série conseguem alcançar.
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