Nem todo herói chega de capa. Alguns chegam de jaqueta surrada, com uma lata de cerveja na mão e o olhar distante de quem carrega um peso invisível. Foi assim que Jim Hopper entrou em Hawkins, em 2016, e foi assim que ele conquistou uma legião de fãs que nunca mais o esqueceu.
O chefe de polícia de Hawkins não era, à primeira vista, o tipo de personagem destinado ao protagonismo. Divorciado, alcoólatra funcional e assombrado pela morte da filha Sara, Hopper vivia no piloto automático de uma cidade pequena onde, aparentemente, nunca acontecia nada. Essa aparente inércia era, na verdade, o ponto de partida perfeito para uma das trajetórias mais humanas da televisão recente.
Um homem partido encontra um propósito
Quando Will Byers desaparece no primeiro episódio, Hopper poderia ter tratado o caso como mais uma ocorrência rotineira. Em vez disso, algo acende dentro dele. A busca pela criança desaparecida vai desenterrando memórias que ele tentou soterrar: a doença, a morte de Sara, o casamento que não sobreviveu ao luto.
O que os Irmãos Duffer fizeram com esse personagem foi extremamente preciso. Ao colocar Hopper diante de uma criança em perigo — primeiro Will, depois Eleven — eles reativaram nele um instinto paterno que parecia morto. Cada decisão que ele toma ao longo das temporadas carrega esse peso. Ele não é um policial heróico por vocação. Ele é um pai que perdeu uma filha e não vai deixar isso acontecer de novo.
O peso de uma atuação
Boa parte do impacto de Hopper vem da entrega de David Harbour, que transformou o personagem em algo que vai além do roteiro. O ator, que enfrentou publicamente um diagnóstico de transtorno bipolar, falou em várias entrevistas sobre o quanto via no personagem uma oportunidade de retratar, com honestidade, o que é viver com dor emocional não tratada.
O resultado aparece em cada cena. O Harbour carrega Hopper com um tipo de cansaço autêntico que raramente aparece em personagens desse perfil. Quando ele chora, chora de verdade. Quando grita, parece que algo dentro dele se rompe. Foram essas nuances que renderam duas indicações ao Emmy e um Screen Actors Guild Award coletivo, em 2017.
A queda, o renascimento e a Rússia
A terceira temporada polarizou os fãs. Hopper tornou-se mais impulsivo, ciumento e até agressivo em suas tentativas de controlar o relacionamento de Eleven com Mike. A crítica foi justa: o personagem regrediu em momentos cruciais. Mas essa regressão também diz algo verdadeiro sobre pessoas que nunca processaram o luto de forma saudável.
Sua aparente morte no final da terceira temporada, e o subsequente retorno como prisioneiro em um campo de trabalho soviético, foi uma das reviravolta mais ousadas da série. Longe de Hawkins, sem superpoderes ao redor, Hopper precisou sobreviver apenas com sua força bruta e sua teimosia. Foi, paradoxalmente, onde ele soou mais humano.

Um legado que permanece
Com o encerramento de Stranger Things após cinco temporadas, Hopper chegou ao fim de sua jornada como um homem diferente do que era. Ainda imperfeito, ainda marcado, mas inteiro de uma forma que o Hopper da primeira temporada jamais conseguiria imaginar.
Ele não salvou Hawkins por ser um herói. Salvou porque tinha algo pelo que lutar. E essa distinção é o que torna Jim Hopper um personagem que permanece muito depois dos créditos finais.
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