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Ivar: o viking mais temido que a história esqueceu

Poucas figuras da história medieval são ao mesmo tempo tão documentadas e tão envoltas em mistério. Ivar Ragnarsson, mais conhecido como Ivar, o Sem Ossos, foi um dos líderes militares mais temidos do século IX — um homem que, segundo as sagas, mal conseguia se locomover sozinho, mas conduziu o maior exército viking que a Inglaterra jamais enfrentou.

A série Vikings popularizou o personagem para uma geração inteira. Mas a história real de Ivar vai muito além do que qualquer roteiro conseguiu capturar.

O apelido que ninguém sabe explicar direito

O epíteto “Sem Ossos” é registrado em nórdico antigo como Ívarr hinn Beinlausi — e os historiadores debatem seu significado há séculos. As teorias são variadas e nenhuma é conclusiva.

A mais aceita pela medicina moderna aponta para a osteogênese imperfeita, a chamada doença dos ossos de vidro, condição hereditária que torna os ossos extremamente frágeis. As sagas vikings descrevem Ivar com “apenas cartilagem onde os ossos deveriam estar”, o que reforça essa hipótese.

Outras teorias caminham em direção diferente. Alguns historiadores acreditam que o apelido se referia à sua flexibilidade e agilidade em combate — uma referência elogiosa, não a uma limitação. Há ainda quem aponte que “sem ossos” pode ter sido uma tradução equivocada de um termo que significava “sem misericórdia”, refletindo sua reputação de crueldade absoluta no campo de batalha.

Uma quarta teoria, mais curiosa, sugere que o apelido era um eufemismo para impotência. Algumas fontes afirmam que Ivar “não tinha desejo de amor nele” — embora outras o descrevam como pai de filhos, o que complica essa leitura.

Um filho que quase não sobreviveu ao nascimento

Segundo a Saga de Ragnar Calças Peludas, sua mãe Aslaug, descrita como uma völva — figura profética e mística — havia alertado o pai que era preciso aguardar três noites antes de consummarem o casamento após seu retorno da Inglaterra. Ragnar ignorou o aviso.

Ivar nasceu com as pernas torcidas e com ossos extremamente frágeis. Na cultura viking, bebês com deficiências graves eram frequentemente abandonados à morte — era considerado um ato de misericórdia, não de crueldade. Ragnar chegou a cogitar o mesmo destino para o filho. Foi Aslaug quem impediu.

O fato de Ivar ter sobrevivido ao nascimento se deveu exclusivamente ao status de seu pai como líder. Um filho de camponês com a mesma condição raramente teria a mesma sorte.

A conquista que mudou a Inglaterra para sempre

Em 865, Ivar liderou ao lado dos irmãos Halfdan e Ubba o que ficou conhecido como o Grande Exército Pagão — a maior força militar viking que pisou em solo inglês. A invasão tinha motivação pessoal: vingar a morte de Ragnar Lothbrok, capturado e executado pelo rei Ælla da Nortúmbria dentro de uma cova de serpentes.

A vingança foi metódica e devastadora. Em 866, os vikings capturaram York, renomeando-a Jórvik e transformando-a no principal centro do domínio nórdico na Inglaterra. Em 869, o rei Edmundo da Ânglia Oriental foi capturado e executado após recusar-se a renunciar à fé cristã — a tradição diz que foi Ivar quem ordenou sua morte.

A execução de Ælla foi ainda mais brutal. Segundo as sagas, os irmãos utilizaram o ritual da águia de sangue: a caixa torácica do rei foi aberta pelas costas e os pulmões esticados para fora, formando a imagem de asas. A historicidade do método é debatida, mas a crueldade de Ivar como líder está bem documentada pelo cronista Adam de Bremen, que o descreveu como “o mais cruel dos guerreiros nórdicos”.

Fonte: Imagem/Reprodução

Um túmulo que guarda segredos

Em 1686, um fazendeiro encontrou um túmulo viking monumental em Repton, na Inglaterra — exatamente a região onde Ivar havia operado. O enterro continha os restos de um indivíduo de altíssimo status cercado pelos ossos de pelo menos 260 outros corpos, o que sugeria um senhor de guerra de importância excepcional.

Exames realizados posteriormente revelaram que o guerreiro central morreu de forma violenta e brutal. Se os restos são de Ivar ainda é tema de disputa entre arqueólogos — a condição óssea do esqueleto não corresponde claramente a nenhuma doença conhecida, o que complica a identificação.

Ivar morreu em 873, de acordo com os Anais da Irlanda, que registram simplesmente: “O rei norueguês morreu de uma doença súbita e hedionda.” A forma como a crônica descreve a notícia deixa claro o alívio de quem escreveu.

Trinta anos depois de Vikings estrear e apresentar esse personagem ao mundo, a figura real de Ivar, o Sem Ossos ainda é mais fascinante do que qualquer ficção conseguiu recriar.

O que você mais gostou do personagem na série? Deixe nos comentários e compartilhe com quem é apaixonado pela história viking.

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