Poucos personagens da ficção carregam uma tragédia tão silenciosa quanto Gollum. A criatura pálida, curvada e obcecada pelo Um Anel é um dos rostos mais reconhecíveis de toda a literatura fantástica. Porém, antes de se tornar Gollum, Sméagol era um hobbit — e essa origem muda completamente a forma de entender sua queda.
A resposta curta é sim. Sméagol era um hobbit, pertencente a um subgrupo específico chamado Grado, em inglês conhecido como Stoor. Essa confirmação vem do próprio J.R.R. Tolkien, tanto nas páginas de O Senhor dos Anéis quanto em cartas pessoais onde o autor detalhou a linhagem do personagem.
Sméagol Era um Hobbit de uma Linhagem Diferente
Os hobbits, na mitologia de Tolkien, não formavam um grupo uniforme. Existiam três subgrupos distintos na Terra-Média: os Harfoots, os Falohides e os Grados. Cada um tinha características físicas e comportamentais próprias.
Os Grados se destacavam dos demais. Eram mais corpulentos, tinham mãos e pés maiores e, ao contrário dos outros hobbits, mantinham uma relação próxima com rios e áreas alagadas. Alguns chegavam a usar calçados para proteger os pés da lama. Além disso, eram o único subgrupo cujos homens conseguiam crescer barbas.
Sméagol pertencia a uma comunidade de Grados que vivia próxima aos Campos de Lis, às margens do Grande Rio Anduin. Essa localização seria, mais tarde, decisiva para o rumo de toda a sua história.
A Vida Antes do Anel
No ano 2430 da Terceira Era, Sméagol nasceu em uma família respeitada dentro de sua comunidade. A matriarca do grupo era sua própria avó, uma figura de autoridade que governava o clã com firmeza e sabedoria segundo os costumes locais.
Jovem curioso e inquieto, Sméagol se interessava por raízes, tocas e lugares escondidos. Seu nome, derivado do inglês arcaico, carrega justamente esse sentido: alguém que escava, que se insinua por baixo das coisas. Já havia, portanto, algo em sua natureza que o movia em direção ao que estava oculto.
Esse traço de personalidade não era necessariamente negativo. Era simplesmente quem ele era. Ainda assim, seria esse mesmo impulso que o colocaria diante do Um Anel.
O Aniversário que Mudou Tudo
Por volta do ano 2463 da Terceira Era, Sméagol foi pescar com seu primo Déagol nos Campos de Lis. Era o dia do seu aniversário. Durante a pesca, Déagol foi puxado para a água por um peixe e emergiu segurando um anel dourado.
O que nenhum dos dois sabia era que aquele anel havia repousado no fundo do rio por séculos. Ele pertencia a Sauron e havia se perdido ali durante a batalha em que Isildur foi morto por orcs. O Um Anel tinha vontade própria. E naquele momento, ele escolheu ser encontrado.
Sméagol exigiu o anel como presente de aniversário. Déagol recusou. O resultado foi um assassinato. Sméagol estrangulou o próprio primo e tomou o objeto para si. Assim teve início uma das histórias mais sombrias criadas por Tolkien.
Como Sméagol Se Tornou Gollum
Após o crime, Sméagol voltou para casa sem contar a ninguém o que havia feito. Passou a usar o anel para espionar os outros e roubar sem ser visto. Aos poucos, a comunidade foi percebendo algo errado naquele hobbit antes tão curioso.
A família o desprezou. Os vizinhos o evitavam. Sméagol passou a murmurar sozinho e a emitir um som peculiar vindo da garganta, como uma deglutição involuntária. Foi por causa desse ruído que a comunidade começou a chamá-lo de Gollum.
Por fim, sua própria avó o expulsou de casa. Ele vagou sozinho pelas margens do Anduin até se refugiar nas cavernas das Montanhas Sombrias, onde viveria por aproximadamente 500 anos. O Um Anel prolongou sua vida muito além do que seria natural para qualquer hobbit.
A Deformação de um Hobbit pelo Poder do Anel
Durante séculos nas cavernas úmidas e escuras, o corpo de Sméagol se transformou de maneiras irreversíveis. A pele perdeu cor. Os olhos dilataram e passaram a brilhar no escuro. Os membros ficaram desproporcionais. O cabelo desapareceu. Ele se alimentava de peixes crus e, ocasionalmente, de pequenos seres que cruzavam seu caminho.
A mente acompanhou a deterioração do corpo. A personalidade de Sméagol se fragmentou em dois polos opostos: o “bom”, que ainda guardava fragmentos de memória afetiva e certa inocência primitiva, e o “mau”, completamente dominado pela obsessão com o Anel.
Mais tarde, Samwise Gamgee nomearia essas duas faces de forma simples. O lado servil e dócil ele chamou de “Rastejante”. O lado perverso e traiçoeiro, de “Fedorento”. Essa dualidade não era apenas literária. Ela refletia, com precisão, o efeito que o Um Anel exercia sobre portadores de longa data.
Por Que Isso Importa para a História
O fato de Sméagol era um hobbit tem um peso narrativo enorme dentro da obra de Tolkien. Não é um detalhe de lore secundário. É o que torna a tragédia de Gollum genuinamente comovente.
Frodo, ao conhecê-lo, reconhece no ser corrompido um parente distante de si mesmo. Sam resiste a essa leitura, mas Frodo persiste. Ele enxerga em Gollum o que qualquer portador do Anel poderia se tornar com o tempo suficiente.
Além disso, Tolkien usou esse contraste para demonstrar a resistência natural dos hobbits ao poder da corrupção. Bilbo carregou o Anel por décadas sem se desfazer completamente. Frodo resistiu até o limite em Mordor. A natureza hobbit, por mais frágil que pareça, guarda uma tenacidade que mesmo criaturas de maior poder raramente exibem.

Sméagol e o Destino da Terra-Média
No final, foi Gollum quem destruiu o Um Anel. Não por virtude, mas por obsessão. Ao arrancar o dedo de Frodo na Montanha da Perdição e cair nas chamas junto com seu “precioso”, ele encerrou o domínio de Sauron de uma forma que nenhum outro ser conseguiria.
Tolkien construiu nessa personagem algo raro: um ser cujo ato mais destrutivo é também seu momento de maior impacto no mundo. A queda de Gollum salva a Terra-Média.
Sméagol começou como um hobbit curioso, nascido em família respeitada, vivendo à beira de um rio. O Um Anel transformou tudo isso em cinzas — literalmente. Mas a lembrança do que ele foi antes é o que torna Gollum impossível de simplesmente odiar.
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