⚠️ Este artigo contém spoilers de The Last of Us e The Last of Us Part II.
Em 2013, quando The Last of Us chegou ao PlayStation 3, os jogadores esperavam um jogo de sobrevivência no apocalipse. O que encontraram foi algo muito diferente: uma das histórias mais humanas já contadas em qualquer mídia, construída ao redor de uma menina de quatorze anos que carregava o mundo nas costas e não tinha a menor ideia de como lidar com isso.
Ellie não é apenas o maior personagem dos games modernos. Ela é o argumento mais completo de que videogames podem contar histórias com a mesma profundidade emocional que a literatura e o cinema.
A garota que cresceu no fim do mundo
Ellie nasceu depois do colapso. Ela não conheceu o mundo anterior — não tem memórias de supermercados cheios, de internet, de segurança. O apocalipse não é tragédia para ela: é simplesmente a realidade. E essa distinção é fundamental para entender quem ela é.
Ao contrário de Joel, que carrega o peso de ter perdido algo concreto e amado, Ellie carrega o peso de nunca ter tido a chance de perder nada. Ela é moldada por ausências que não sabe nomear — e essa condição cria uma personagem que combina dureza e vulnerabilidade de um jeito que raramente aparece na ficção.
Sua imunidade ao fungo Cordyceps, que transformou a humanidade em criaturas monstruosas, é o elemento que move a trama. Mas a Naughty Dog teve a inteligência de nunca deixar que essa condição especial apagasse quem Ellie é como pessoa. Ela não é o “chosen one” de um shonen. Ela é uma adolescente assustada que faz piadas ruins, coleciona quadrinhos e tenta desesperadamente pertencer a algum lugar.
Joel e o vínculo que define tudo
A relação entre Ellie e Joel é o coração emocional de The Last of Us — e um dos vínculos mais bem construídos da história dos games. Eles começam como estranhos, evoluem para uma dinâmica de proteção mútua relutante e chegam, silenciosamente, a algo que nenhum dos dois consegue nomear mas que o jogador reconhece com clareza.
Joel encontra em Ellie uma razão para continuar que ele havia perdido anos antes. Ellie encontra em Joel a figura paterna que nunca teve. Nenhum dos dois diz isso abertamente. Não precisam.
A decisão de Joel no final do primeiro jogo — salvar Ellie em detrimento da possibilidade de uma cura para a humanidade — é um dos momentos mais debatidos dos games precisamente porque não tem resposta certa. É um ato de amor profundo e de egoísmo absoluto ao mesmo tempo. E Ellie, quando descobre a verdade, precisa decidir o que fazer com isso.
Part II e a coragem de complicar tudo
Se o primeiro jogo construiu Ellie, The Last of Us Part II desconstruiu tudo com uma coragem que dividiu o público de forma radical.
A sequência colocou Ellie como protagonista de uma história sobre vingança — e não poupou o jogador de ver o que a vingança faz com uma pessoa. Ela mata. Ela tortura. Ela sacrifica relacionamentos, saúde mental e a própria identidade em nome de um objetivo que vai perdendo sentido à medida que avança.
A Naughty Dog forçou o jogador a habitar a perspectiva de quem Ellie estava destruindo — e depois voltou para mostrar o que restou dela depois de tudo. O que restou não é glorioso. É uma mão que não fecha mais completamente, um relacionamento destruído, uma fazenda silenciosa e a consciência de que o que ela buscava nunca poderia ser encontrado na ponta de uma faca.
Essa narrativa não agradou a todos. Mas é precisamente a disposição de mostrar Ellie em seu pior — sem redenção fácil, sem discurso motivacional — que a torna um dos personagens mais honestos que os games já produziram.

Por que ela permanece
Ellie ressoa porque é imperfeita da maneira certa. Ela não é uma heroína que inspira. É uma pessoa que sobrevive, que erra, que ama de forma destrutiva e que carrega consequências reais de cada escolha que faz.
Em um universo de personagens que salvam o mundo com sorrisos ou que se redimem no último ato, Ellie existe para lembrar que algumas feridas não fecham — e que isso não torna a história menos válida. Pelo contrário.
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